Varsóvia
Cirilo Lemos
1/11/20263 min read


Passei a vida navegando para longe da praia, deixando mapas se apagarem e bússolas ficarem sem norte. É preciso se perder para se encontrar, dizem. Não me encontrei ainda, mas sigo procurando.
Arranquei-me da cidade na qual cresci. Transplantei-me para sobreviver. Mas as raízes ficaram, os frutos permaneceram, tudo ainda dói. Parece dramático porque é. A cidade em que cresci não é a mesma. Quando a visito, suas ruas são menores do que são no meu amor, mais sujas, menos coloridas. Seus bêbados e vagabundos não são mais engraçados e familiares, os carros não são mais parte do rebanho de velharias domesticadas. O quarteirão cheio de moleques correndo atrás de pipas e bolas dente-de-leite os viu crescer e não os substituiu. Preferiu trincar seu asfalto, fechar suas janelas e adormecer sob tufos de capim.
A primeira pessoa que percebeu isso foi meu amigo Francisco, ao compreender que nosso destino era ficar encaixotado ou mudar, e até hoje ele é o que sempre vai mais longe. Francisco partiu e sentiu pena de mim por ficar. Não sinta pena de mim, eu me lembro de dizer, já basta a que eu mesmo sinto. Ele voltou algumas vezes, procurando por alguma coisa. Sempre ria, contava histórias e como o mundo lá fora era uma experiência incrível. Mas um domingo à noite, pouco antes de ir embora outra vez, ele chorou e me abraçou. Disse que cada vez que voltava, era como visitar o túmulo de alguém querido. Era uma cidade de papelão.
Só entendi aquelas lágrimas quando fui obrigado a ir embora também. Nunca pensei em deixar aquele lugar, mas era isso ou morrer. Eu morreria, tenho certeza. Fui esfaqueado, o sangue não parava de encharcar minhas roupas e meu chão. Não queria acabar ali, um fantasma ressentido.
Enfiei uma muda de roupa na mochila, o kindle, um caderno, um ukulelê (ainda não sei a razão da escolha) e comprei uma passagem para Varsóvia.
Desci na rodoviária e, enquanto esperava e tiritava de frio, peguei meu caderno para anotar minhas impressões daquele lugar enorme. Sempre ouvi que escritores precisam observar a paisagem ao redor. Absorver nuances, suspiros, cheiros, rostos, enxergar histórias nos detalhes. Também dizem que um escritor precisa escrever sobre o que sabe. Mas o que sei é sempre muito pouco. Eu queria a lua, Tóquio, um mosteiro medieval.
Enquanto rabiscava minhas frases, entendi que só havia duas abordagens possíveis: pesquisar – envolver-se o máximo possível com o tema, ler livros, artigos, assistir documentários, conversar com gente que entende do assunto, visitar lugares – ou fingir.
No meu caderno, fingi: Varsóvia é tecida por fios invisíveis de esperança e desespero, nos quais viciados e trabalhadores se penduram feito fantoches. Automóveis e motocicletas exigem oferendas de velocidade, tempo e, às vezes, sangue. No meio desse ritual frenético, perguntava-me se também sou parte do espetáculo ou apenas um espectador distante.
Fingir é confiar na imaginação. Nunca pisarei na lua. Então eu finjo. Não irei a Tóquio. Então eu finjo. Não conheço Varsóvia, então eu finjo. A imaginação pode preencher as lacunas e fazer você olhar para aquela parte do cenário onde gastei o dinheiro do orçamento, e não para os móveis de isopor e as paredes falsas. Mas fingir do jeito errado constrói cidades de papelão, como as que Francisco temia.
Vivo e trabalho em Varsóvia há alguns anos. A ferida de faca lateja, principalmente quando caminho sozinho nessas calçadas estreitas e irregulares. Ando perdido, tudo é labirinto. Meus pés dançam a valsa descompassada que apenas a cidade sabe executar. Essas ruas têm suas histórias gravadas nas rachaduras e esquinas, e nem sempre as compartilham com estranhos. Também não compartilho as minhas. Juro que não entendo. Lá, me sinto aqui. Aqui, me sinto lá.
E então o entardecer chega e pinta tudo de melancolia. Um sol que se despede e escorrega devagar por trás da cordilheira de concreto armado. Uma a uma, as luzes das ruas e dos prédios começam a piscar. Parecem estrelas, se ainda fosse possível lembrar como elas são nesse céu tão polonês. Acho que amo esse lugar, mas também odeio um pouco. É preciso se perder para se encontrar. Enquanto caminho por essas calçadas imprevisíveis, eu me pergunto se minhas raízes encontrarão um dia a terra sob o cimento. Se não encontrarem, fingirei.
Masp (Divulgação/CASACOR)

