Tolkien em Nova Iguaçu
Cirilo Lemos
1/10/20264 min read


As redes sociais estavam prestes a ser inventadas na cabeça de algum programador universitário americano. Isolado em Miguel Couto, Nova Iguaçu, eu era o singular, o quintessencial, precursor de uma nova era da literatura brasileira, tecendo uma revolução cultural solitária, dragão por dragão, paladino por paladino.
Preparava-me para ser o mestre da fantasia brasileira no século XXI, um Tolkien verde e amarelo inventando mundos fabulosos, elaborando geografias complexas, povoando terras com anões e elfos, sarapintando um Senhor das Trevas aqui, um Escolhido ali, uma Batalha Final acolá. Um Cirilmarillion, haha (desculpe por essa).
Mal imaginava que esse era um estágio larval de uma geração de escritores que almejava o mesmo, um zeitgeist do pastiche, uma explosão atávica do clichê: emular Tolkien, Rowling, Asimov ou (insira aqui seu nome preferido) tropo por tropo, mania por mania.
No meu caso, Tolkien.
A imitação não é uma mera cópia. Imitar pode ser uma ferramenta interessante de aprendizado. Ao destrinchar um texto empolgante, desmontando suas peças e estudando como uma se relaciona com a outra, podemos entender melhor o que faz a escrita daquele autor nos fisgar feito uma tilápia barriguda. Esse processo de análise detalhada nos permite identificar elementos como a estrutura narrativa, o uso de metáforas, o ritmo das frases e a construção de personagens e cenários, que podem ser incorporados em nossa própria escrita. A imitação se torna um exercício de prática consciente, onde absorvemos o que funciona e descartamos o que não se alinha com nossa voz.
Brincar com a caixa de tropos que Tolkien transmitiu à Fantasia ocidental foi válido na construção de meu próprio edifício literário. Percebi, entretanto, que eu não estava apenas imitando. Estava copiando. Reproduzindo uma versão Steven Seagal do legendário tolkieniano. Mudava umas coisas aqui, outras ali, mas era tudo absolutamente igual em intenção (embora não em resultados, obviamente).
Até a eterna revisão das minúcias eu estava emulando – o que me parecia um belo pretexto para me sentir escritor sem escrever coisíssima nenhuma, como os magos teóricos de Susanna Clarke. Cheguei ao ponto de decidir não rascunhar uma linha sequer de narrativa enquanto não tivesse desenvolvido os mínimos detalhes do cenário de meu épico em quatro volumes.
Comecei com os idiomas dos povos fantásticos. Travei nessa parte e aí fiquei. Não tinha o menor talento para linguista, então resolvi que seria mais produtivo voltar a isso depois. Era melhor eu definir a cronologia das cinco eras do mundo primeiro, uns dez mil anos de História. Gastei meses descrevendo linhagens de reis e heróis, guerras ancestrais, eventos cataclísmicos. Escrevi poemas ruins sobre a criação do universo, porque era assim que começava o Ainulindalë.
Um dia, caminhava com um amigo até a praça do bairro. A gente ia comprar alguma besteira para comer, talvez cachorro-quente (sem purê, por favor). Lá estava eu, descrevendo meus bravos heróis para ele enquanto tentava não ser atropelado por um mototáxi, quando falei de um dos personagens principais, uma ilusionista trapaceira élfica.
– Sempre tem que ter uma maga elfa, né? – ele comentou, casualmente.
Pisquei os olhos mil vezes. Como assim? A minha era única. Tinha elfas em muitas histórias, vá lá, mas a minha era diferente porque... porque...
Porque sim, oras.
Esse mesmo amigo apareceu depois com uns desenhos legais, meio inspirados nas ilustrações do velho Tagmar. E começou a falar sobre um cenário que estava desenvolvendo para sua campanha de RPG, onde havia a ameaça do retorno de um Senhor do Mal e um Escolhido destinado a destruí-lo.
Como ele ousava? Tinha um Senhor do Mal na minha história, tinha um Escolhido na minha história. Tinha em outras também, vá lá, mas a minha era diferente porque... porque...
Porque sim, oras.
Algo me acertou forte ali.
Em casa, olhei para as dezenas de páginas nas quais rabiscava meu épico, algumas manuscritas, outras datilografadas com uma Olivetti creme que emprestei de uma prima, e não havia nada lá. Nenhum diálogo, mesmo dos mais pobres, nenhum personagem sorrindo, chorando, vivendo, nenhuma narrativa, nenhum mostrar ou contar, nada além de anotações sobre deuses, cosmogonias e palavras inventadas para simular línguas de povos exóticos xerocados de O Silmarillion ou do Livro do Jogador. Mas literatura, nenhuma fagulha. Nem uma frase miserável.
Aquele monte de anotações não interessava a ninguém além de mim.
Enfiei tudo numa caixa de papelão. Queria aquele material longe (mas não tão longe que me impedisse de retornar a ele, caso tivesse uma recaída). Estava magoado e indignado. Guardei a caixa em uma prateleira da oficina do meu pai, um lugar escuro e empoeirado como uma masmorra de Angband.
Tempos depois, a chuva penetrou por uma telha quebrada e transformou a caixa em uma maçaroca de papel grudado e manchado de tinta. Confesso que deu um aperto no peito, como um Valar vendo as duas árvores destruídas por Melkor e Ungoliant. Mas acho que foi bom. Foi o equivalente a deixar o Um Anel cair na lava da Montanha da Perdição. Eu estava livre.
Não me entenda mal: continuo amando a Terra-Média, a Era Hiboriana, Melniboné, Arton, Westeros, Terramar. Ainda tenho vontade de me aventurar por mapas próprios um dia. Quando – e se – esse dia chegar, não vou escapar da influência desses autores e autoras, eu sei. Mas partirei do princípio de que não posso e não preciso recriar O Senhor dos Anéis. Não preciso contar em uma saga de quatro livros o que posso contar em um só. Não preciso contar em um romance o que cabe em uma noveleta.
Diante da massa de papel e tinta transformada em polpa pela chuva, o mundo perdia um imitador de J.R.R. Tolkien. Mas tudo bem: ainda restavam milhares por aí.
Quanto a mim, eu havia passado para o próximo estágio da jornada do aspirante a escritor brasileiro: imitar Rubem Fonseca, Clarice Lispector, Charles Bukowski ou Jonathan Franzen, daquele jeito Steven Seagal.
Colagem a partir de fotos da internet. Acredita-se que Tolkien nunca esteve na Baixada Fluminense.

